sábado, 30 de agosto de 2008

MI CASA ES SU CASA… O ESCAMBAU!

Se você me ama, não me peça nada emprestado! Nem mencione a possibilidade, sob pena de me ver ter uma crise de nervos envolvendo tremores, suor frio, gagueira e um olho só piscando freneticamente. Estou avisando, vai ser assustador! As pessoas vão questionar o que você deve ter feito, indivíduo sem coração, para deixar uma pessoa nesse estado e você antes de ser linchado só vai ter tempo de gritar: “ Era só um DVD! Eu juro!”
Bom, alertado você foi...
É estranho como as pessoas desenvolvem certas fobias. Saiba, amigo, que nem sempre fui assim. Eu, na verdade, era daquelas pessoas que sempre gostavam de agradar. Pior ainda: fazia parte daquele grupo de pessoas propensas a ter ataques cardíacos, depressão, desenvolver úlceras e ter câncer. Não falo dos sedentários, fumantes ou alcoólatras. Estou falando das pessoas que não sabem dizer não. Sim, leitor! Eu confesso! Ó, fraqueza de espírito cruel!
Mas esse terrível distúrbio não estava sozinho. Aliado a certa timidez, chegava a ser perigoso.
- Vamos atravessar o rio a nado.
- É que eu não sei...
- Deixa de ser mole, mulher, tem que curtir uma aventura. Pula logo! Isso, agora me segue... Tina?
- Glub...glub...
Se você conhece uma pessoa que não sabe dizer não, amarre-a! Um dia ela vai agradecer.
A ruína de quem não sabe dizer não é ter em companhia uma pessoa que fala pelos outros.
- Quer sopa de jiló, querida? Leva soja, receita nova, preciso que alguém prove.
- Ham... É que eu já jantei, até comi demais...
- Ela quer sim, é que ela é tímida!
- Aff...
E tem aquela pessoa que finge não escutar uma sutil desculpa insinuada.
- Dá uma olhadinha nos meus três filhos enquanto eu dou uma saidinha com os amigos?
- Ih, tenho um planejamento pra entregar amanhã, coisa chata, dificílimo...
- Só umas horinhas, tá? Valeu mesmo! Aqui tem as fraldas, mamadeira, remédios pra febre e diarréia...
Mas os empréstimos... Ah, esses são os piores. Raramente alguma coisa volta, e quando volta, tenho vontade de chorar quando vejo o estado lastimável. Lixo. Sem contar que moro num ponto do universo onde as coisas somem misteriosamente, um buraco negro que engole coisas, na grande maioria minhas, e nunca devolve. São centenas de lápis de olho, batom, sombra, roupa, acessórios, esmaltes, perfume CDs e similares que simplesmente viraram pó.
- Lápis de olho?
- É.
- Não, vi não. Não sei nem o que é.
- Mas você usou ontem.
- Ah... Lembrei! Hum... vi não.
Mas o ponto máximo da festa, ou seja, o clímax, onde a coisa realmente desandou foi ficar sem uma das minhas paixões: meus filmes. Saio pouco de casa, só para respirar um pouco de vez em quando. Gosto mesmo é de um filminho ou um bom livro embaixo do edredom. Infelizmente para algumas pessoas, objetos dos outros não parecem ter valor algum. Já perdi a conta de quantos títulos maravilhosos perdi emprestando. Alguns, inclusive, que eu uso nas minhas aulas. Isso me deixa doente!
- Sabe aqueles DVDs que eu te emprestei outro dia? É que eu vou passar um filme na escola e queria um deles.
- Ah, num vai dar não, ó. Tá tudo na casa da Patricinha, emprestei pra ela semana passada.
- Todos os dez?
- Depois eu passo lá e pego.
- Mas já tem dois meses.
- Hum, pois é, se é que eles ainda existem... Ah, passa outro! Por falar nisso, num tem nenhum novo aí, não?
- NÃO!
- Nem um livro? Aquele que eu te vi comprando...
- Gah...ugh..grof...
- Esse olho piscando, essa tremedeira, você ta me assustando...
Ufa! Não foi fácil. A primeira vez é dureza. Mas eu consegui. Não sem um trauma e seqüelas permanentes. Mas o fato é que aprendi a dizer não. Não. Não, não, não e não! Não de novo, só pra apreciar o som. Se eu não cuidar de mim e das minhas coisas, quem vai? Pode ser o Bento XVI, vai ouvir um não redondo. Ainda gosto de tratar bem meus amigos e de agradá-los, mas para alguns, um pequeno grupo, as coisas vão mudar.
-Sinta-se como se estivesse na MINHA casa.


Um comentário:

Fabiano Roberto disse...

não saber dizer não é um problema mesmo, tb sou assim e sei que muitas vezes faço coisas que não deveria.