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O juramento de Hipócrates x o interesse dos hipócritas
O juramento de Hipócrates x o interesse dos hipócritas
Recentemente levei um dos maiores sustos de minha vida. Minha filha com alguns dias de nascida começou a apresentar dificuldade para respirar e um barulho estranho, como um assobio, ao mamar ou chorar. Todos diziam que se tratava de resíduo do parto, mas como aumentava muito, levei-a à pediatra. Ela me disse que tinha quase certeza de que se tratava de uma malformação congênita na laringe, mas me aconselhou a procurar um otorrino para ter certeza.
Antes que eu pudesse fazer isso, senti uma piora na minha filha e corremos com ela ao Pronto-socorro. Lá fizemos muitos exames e fomos encaminhados ao dr. Carlos Beiruth para avaliação, ele a examinou com um estetoscópio e pediu que os exames fossem revistos e que fosse feito um outro exame de nome complicado. Depois de rever os exames voltássemos lá. A médica do P.S. quase não conseguiu decifrar que exame era aquele, mas feito isso reescreveu o nome na ficha. Levando em consideração a idade da criança fomos transferidos para a maternidade, que tem melhor suporte para recém-nascidos.
Passamos a noite em observação e nos foi informado que o mesmo médico faria o tal exame detalhado que diria se era ou não de algo na laringe. Deixamos a criança em jejum e esperamos. Na hora marcada saímos com a criança no oxigênio e fomos ao consultório, onde depois de vários minutos de angustiante espera, uma das atendentes veio nos perguntar quem tinha agendado aquilo, com quem tinha falado. Respondidas as perguntas, ela nos disse que não havia nada agendado. A médica que nos acompanhava ligou para a gerência ma maternidade, que reafirmou a consulta. Em seguida, a mesma atendente veio nos dizer que infelizmente o doutor não atendia pela maternidade, só pelo P.S. ao que a médica respondeu que o combinado era que ele faria uma cortesia. Só então eu fiquei sabendo da história.
A médica, muito constrangida, tentava falar com a gerência, enquanto a atendente continuava a dizer que nada seria feito, ele não costumava fazer aquilo. Dissemos que tínhamos vindo do P.S. no dia anterior e ele mesmo havia nos mandado voltar e pedido aquele exame. Minha mãe perguntou quanto era o exame. Trezentos reais. "Não por isso, a gente paga! Vai deixar uma criança nesse estado voltar?"Ela saiu.
Pouco depois ele entrou dizendo que havia um mal-entendido, não tinha nada agendado para aquele dia e ele não poderia fazer o exame, pois precisava de uma preparação e não daria tempo. Mas que não nos preocupássemos, pois ele o faria no outro dia pela manhã.
Minha mãe, que tem mais atitude do que eu, disse: "Mas se o problema for dinheiro, doutor, a gente paga. Faça o exame!"
-Imagina! Se fosse por isso eu faria de graça, tô até folgado agora! É que não tem nada preparado mesmo. Mas não se preocupe, se for o que estamos pensando ela vai ficar boa sem remédio!
Voltamos desapontados e desesperados sem saber o que minha filha tinha. Um pouco depois de chegar fui informada pela maternidade de ele cobraria trezentos reais, se a família se disponibilizasse a pagar seria mais rápido, senão teriam que fazer um pedido junto à gerência da maternidade sem a certeza de que seria pago. Todos estavam indignados, desde a representante que veio falar comigo à assistente social que me garantiu que tudo tinha sido acertado sim, inclusive que ele faria como cortesia."Então o problema era dinheiro mesmo", pensei. Enquanto as enfermeiras falavam indignadas sobre o caso, liguei pra minha mãe e contei. Ela foi lá, depois meu marido e todos ouviram a mesma história.
Já inchada de tanto chorar, recebi a visita da assistente social, que pediu desculpas pelo constrangimento e disse que tinha falado com outra médica e como eu me dispunha a pagar, ela havia conseguido um desconto e tinha marcado o exame. Dois dias depois a médica veio e fez o tal exame, que durou menos de cinco minutos e cuja única preparação necessária era o jejum da criança. Aquilo me deixou ainda mais furiosa! Agradecemos à médica que se prontificou a ir até a maternidade e finalmente tivemos o diagnóstico: laringomalácia.
Acrescentamos mais uma palavra ao nosso vocabulário e vamos ter que aprender a conviver com ela, pois provavelmente melhore sozinha com o passar do tempo. Teremos que ter cuidados especiais com nossa filhinha, mas o importante é que temos essa coisinha linda conosco. Só fico pensando: se fosse um caso severo, bem mais grave e eu não tivesse dinheiro disponível? Minha filha teria morrido pela falta de trezentos reais?
E o senhor, doutor Carlos Beiruth, não ficaria nem mais rico nem mais pobre, mas se tivesse atendido minha filha com o zelo de um médico,com certeza ficaria mais humano.