sexta-feira, 29 de agosto de 2008


Precisa-se de Paquita

Professora de Ensino Fundamental de colégio público procura Paquita com experiência. Tratar com a autora.

Estava eu num de meus passatempos preferidos, assistir vídeos na internet, quando me deparei com um vídeo da Xuxa em início de carreira. Coitada, corria de um lado para o outro, sozinha, tentando ora afastar crianças do meio da brincadeira, ora deixá-las sentadas em seus lugares. Uma brincadeira demorava séculos para ser iniciada porque os baixinhos simplesmente não paravam quietos e acabavam atrapalhando. Ainda não tinha nenhuma Paquita no programa.
Lembrei então de mim mesma tentando iniciar uma aula na 5ª série. Eles simplesmente não param. Não adianta falar, gritar, berrar, ameaçar... É desordem total. Somente depois de algum tempo, uma garganta ardendo e muitas veias saltadas é que a aula começa. Lembro com saudade de meu tempo de criança, quando os professores eram respeitados, alguns até temidos, como meu antigo professor de física, um boliviano que ia aplicar prova de óculos escuros. Bons tempos... As mães ensinavam que na escola você deveria se comportar melhor do que em casa, e ai de quem aprontasse.
Hoje em dia, com a evolução dos tempos, tudo mudou. As famílias mais carentes geralmente são chefiadas pelas mães, que na maioria das vezes só têm duas opções de vida. A primeira é trabalhar o dia inteiro para sustentar seus filhos, que por conseqüência passam o dia na rua, entregues à própria sorte. A segunda é passar o dia na casa da vizinha fofocando, o cabelo enrolado e preso com uma bic velha, vestindo uma camisa de deputado desbotada, esperando um bolsa esmola qualquer, e os filhos na rua entregues à própria sorte.
O resultado disso são crianças sem noções de limites. Eles nos xingam, gritam conosco, ameaçam e sempre têm uma resposta afiada. “Não sento e quero ver quem vai me fazer”. “Nem meu pai manda em mim, tia!”, “Meu pai tá na Penal e eu vou ser que nem ele: mexeu comigo leva chumbo”, “Tá gaiata, heim, tia? Tem medo de morrer não?” Esses são alguns mimos ofertados por nossos anjinhos.
Sobem nas carteiras, correm pela sala, saem sem pedir e correm pelo corredor. Uma menina com maquiagem de festa e brincos até o ombro berra que o Lucas (ou o Mateus, ou o Tiago...) escondeu o caderno dela. Em seguida, tenho que separar o Lucas-Mateus-Tiago que está agarrado no cabelo dela.
Por isso tive a idéia de contratar uma Paquita. Como no programa, ela me ajudaria a manter os baixinhos no lugar, só deixaria chegar até mim aqueles que precisassem de alguma explicação adicional, separaria as brigas enquanto eu estivesse corrigindo, mandaria o Lucas(meu Deus, como tem Lucas nesse mundo!) parar de gritar com a colega. E eu não ficaria assim, que nem a Xuxa no início da carreira, sem conseguir dar atenção especial a ninguém, só um inexpressivo “An-ham, Cláudia, senta lá”.Enquanto nós tivermos que assoviar, chupar cana, plantar bananeira e manter o Lucas-Mateus-Tiago no lugar,a educação não vai funcionar.
“Menino, desce já daí!!!!!!!!!!!!!!!!”

Tina

Um comentário:

Mitch Souza disse...

nossa, realmente não deve ser fácil... nada q uma granada de efeito moral e uma centena de dardos tranquilizantes não façam...