terça-feira, 4 de novembro de 2008

É POR ISSO QUE O BRASIL NÃO VAI PRA FRENTE


Um dos termos que destoa totalmente do seu significado é "paciente". Quando uma pessoa está enferma ou necessita de acompanhamento médico, ou mesmo acompanha alguém em tal situação, a última coisa que ela tem é paciência. A dor, o desconforto, as dúvidas e o medo muitas vezes nos tiram a clareza de raciocínio e deixam as emoções à flor da pele. Infelizmente, no Brasil, o atendimento à população ainda é desumano, incoerente e precário.
Você pode pensar: "Ih, lá vem ela falando mal do sistema público de novo..."
E tem como falar bem? Aliás, a falta de preparo de funcionários para lidar com as pessoas não é privilégio do sistema público.
Minha penúltima experiência foi uma ultrassonografia na Maternidade Bárbara Heliodora, que tinha sido marcada para as seis e meia da manhã, pois pobre que não amanhece em fila perde a carteirinha. Cheguei às seis e quarenta e me mandaram entrar correndo porque já estavam quase acabando. Esperei mais uns dez minutos até que a enfermeira parasse de me ignorar e pelo menos olhasse para mim. A "simpática" que marca e auxilia na consulta, quando resolveu parar de me castigar, disse em voz alta e salientando bem as palavras:
- Ainda tem alguém das SEIS E MEIA? Ah, você veio pra ultrassonografia das SEIS E MEIA? Agora vai ter que aguardar aí, que todas as outras que chegaram às SEIS E MEIA já foram atendidas. Tem que chegar na hora marcada porque o médico num espera por ninguém, não! É melhor você esperar por ele do que ele por você.
- Quer dizer que em meia hora já foram atendidas sete pacientes? Imagino o nível do serviço... - alfinetei.
Já tinham começado a atender as mulheres que iam fazer a endovaginal, trabalho que não demorou dez minutos. Comentei com outra grávida atrasada que esperava comigo:
- Será que ele dá pelo menos um 360° na barriga?
Realmente, a coisa é deprimente. A enfermeira, que já tinha "garrado um ódio" de mim pelo comentário, me fez deitar na cama e voltou pro lugar dizendo pro médico:
- Hoje mandaram a lista completa pra nós, num faltou ninguém.
Ao que ele respondeu, pasmem:
-É, isso é castigo pra nós!
(Pausa para um palavrão que não tenho coragem de escrever aqui, mas que me vem à cabeça quando lembro deste episódio. Você, leitor, por favor, imagine-se ouvindo Fur Elise ou algo do gênero.)
Respirei fundo e fiquei calada. Foi difícil, mas eu queria ver aonde aquilo ia levar.
Foram os três minutinhos mais difíceis da minha gravidez. O médico, sem olhar no meu rosto, disse rispidamente:
- Levanta a blusa!
Ditou alguma coisa para a enfermeira e sussurrou, ainda sem me olhar:
- Menina.
- Como? - realmente não tinha entendido, ou porque ainda estava meio atordoada ou pela forma como ele falou.
Dessa vez ele olhou pra mim, incrédulo, como se eu tivesse perguntado a coisa mais estapafúrdia do mundo. A resposta foi quase um rosnado:
- ME-NI-NA!
Saí de lá pensando em como é fácil estragar a felicidade das pessoas. Lá fora, a grávida que tinha entrado junto comigo perguntou se ele tinha me dito o sexo. Respondi que sim e ela vibrou:
- Que sorte a sua, da outra vez que eu fiz, fui cair na besteira de perguntar e o médico nem me respondeu.
O engraçado é que em todos os órgãos públicos vemos nas paredes o artigo 331 do código penal, que diz que desacatar funcionário público no exercício de sua função ou em razão dela é crime com pena de detenção de 6 meses a 2 anos, ou multa. Mas onde é que está a lei que assegura o direito do cidadão a ter um atendimento digno? Pagamos nossos impostos (termo que combina perfeitamente com seu significado) e é isso que temos assegurado: o direito de permanecer calados e engolir todo o tipo de abuso praticado por ditos "profissionais" que acham que fazem grande favor em cumprir com suas obrigações e humilham seres humanos sem os quais não teriam como ganhar seu dinheiro no final do mês.
Realmente é preciso ser paciente, muito paciente pra aturar esse sistema que é feito para privilegiar poucos e assegurar direitos a pessoas com condutas duvidosas. Enquanto o povo for tão paciente e resignado nada vai mudar. Haja maracujá...

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